A Arte de Thiago Alves
Poemas & Cores - A expressão da alma.
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A CRUZ DO DESERTO
A minha identidade cultural é extremamente marcada pelas minhas raízes. Segundo o Cientista Social Carlos Neto, isto é um conjunto de traços culturais característicos de um determinado grupo. Esses traços são responsáveis por definir o grupo de pessoa ao qual eu pertenço, gerando em mim, um sentimento de pertencimento como em cada pessoa desse ambiente.
Vivi toda minha infância e adolescência, inconscientemente buscando a Filosofia Socrático do conhecer a mim mesmo, contudo mesmo sem conhecer, não deixava de desmistificar em minha mente, o Mito da Caverna de Platão, conservando a imagem da minha visão do arredor, mas imaginando como seria o mundo além do meio em que eu vivia.

Na pacata cidade de Itabaiana na Paraíba, terra onde nasceram grandes vultos da sua história conhecidos nacionalmente e internacionalmente, como o Poeta Zé da Luz, o grande cineasta Vladimir Carvalho, O jornalista Abelardo Jurema, o músico Severino Dias de Oliveira, internacionalmente conhecido como Sivuca, o artista plástico de renome internacional Otto Cavalcanti, entre tantos outros, tenho eu o orgulho de também ter nascido lá e ter dado minha parcela de contribuição para a cultura daquele povo, assim como também outros grandes artistas e amigos meus, que ali viveram e se radicalizaram, como o arquiteto e poeta Jessie Quirino, o grande artista plástico Paulo de Lira e o mestre da escultura Isaias Alves (Zaia) e outros mais.
Como em outras cidadezinhas de interior, em Itabaiana incríveis histórias acontecem. Lendas e contos se formam a partir da fé e da crença na cultura que o povo cultiva.

Ali nós vivíamos usufruindo do dos direitos que trata a Declaração Universal dos direitos Humanos em seu Artigo 1º “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”.

A Professora Maria da Soledade Alves (Dona Soledade), uma exímia contadora de estórias, da cuja eu tenho a honra de chamá-la de minha Mãe, tinha uma pequena fazenda, num Distrito chamado Caldeirão, próximo de Itabaiana. Lá nós passávamos a maior parte do tempo, curtindo aquela simples vida de interior. Me encho de saudades, cada vez que lembro daquele saudoso lugar. Foi lá que eu e meus doze irmãos aprendemos no nosso cotidiano, estórias incríveis que ouvíamos nossa querida mãe contar.

Naquele tempo, em torno das décadas de 50 e 60, não tinha energia elétrica na zona rural. O povo do sítio utilizava para a iluminação durante a noite, o lampião a gás, chamado candeeiro.  Nós vivíamos da agropecuária básica, onde, cultivávamos entre outras culturas, o milho, feijão, arroz, algodão e mandioca. Na pecuária, criávamos gado bovino leiteiro, caprinos, equinos, asnos, jumentos, muares, galinhas e outras aves.

No período da colheita, o galpão da nossa casa ficava abarrotado de feijão e milho, enquanto os silos ficavam cheios de arroz, que durava de uma à outra colheita e nós não precisávamos comprar daquele produto. Durante a noite as mulheres da vizinhança se juntavam lá na nossa casa para debulhar o feijão macaça seco.
- Acontecia assim: Numa roda de muitas pessoas, assentadas no chão, sobre uma grande lona, ou numa esteira, ficavam todos atentos ao grande espetáculo do conto.  Eu, ficava junto da minha mãe, ouvindo o estalo das cascas do feijão seco, se debulhando nas mãos das pessoas. Iluminados pela ofuscada luz do candeeiro que ficava pendurado num prego batido na parede e em silêncio, todos ouviam a forma encantadora da contadora de estórias.
- Eu não trocava aquilo por nado no mundo!
Uma dessas noites enquanto mamãe conversava com algumas mulheres, ela se dirigiu para uma delas e falou assim:
- Comadre Maria, amanhã depois do almoço eu vou pagar uma promessa lá na Cruz do Deserto!

...E Dona Maria disse: Ah, Comadre Soledade! Eu também vou com a senhora, porque eu preciso pagar uma promessa, que há bastante tempo, eu estou devendo lá na Santa Cruz do Deserto!  Eu que outras vezes, já tinha ido aquele local, perguntei:

- Mamãe, por que chamam aquele local de Cruz do Deserto? E ela aproveitando o ensejo, contou a seguinte estória:
Há muito e muito tempo atrás, quando pouca gente habitava na zona urbana e havia mais gente morando na zona rural do que na cidade, em Itabaiana ainda habitava uma pequena população. Lá na cidade na rua atrás da Cadeia Velha, que hoje se chama a Rua São Sebastião, havia um guarda noturno que fazia a vigilância daquela rua. Ele contou que certa vez, durante a noite enquanto vigiava, olhou para o final da rua e viu uma luz azul, grande como a lua cheia, lá dentro do mato. Como ele não tinha medo de nada, caminhou, caminhou e foi se afastando da rua entrou pelo mato a fora e foi até lá. Ao aproximar-se do local, à luz desapareceu. Ele olhou, olhou em volta, mas não viu mais aquela luz. Então ele voltou depressa para a rua e quando ele chegou de volta, olhou para trás e lá estava a luz no mesmo local. Sentindo-se encabulado o guarda não voltou mais lá naquela noite e se perguntava: o que será aquilo?

Na noite seguinte, quando a rua ficou em silêncio, o guarda saiu para a vigilância e ao olhar naquela mesma direção, novamente percebeu que à luz estava no mesmo local, cada vez mais, azulada e viva. Outra vez ele foi até o local e cautelosamente continuou observando, mas num piscar de olhos a luz desapareceu. O guarda começou a ficar com medo! Apressado, voltou para a rua. E de volta, tornou a olhar naquela direção e observou que outra vez a luz reapareceu no mesmo local.

Passaram-se os dias e todas as noites o guarda continuava vendo naquela direção, a luz cada vez mais viva e brilhante. Porém não voltou mais lá no local. Porém, aquilo começou a incomodá-lo de tal forma, que ele começou a ficar doente, pálido, de tal maneira, que não conseguia mais dormir.  Certa vez, no final da noite, quando voltou para casa, ao deitar-se adormeceu e sonhou. No sonho, ouviu uma voz que dizia assim: Você viu aquela luz lá no deserto? E ele respondendo disse: Vi sim! A voz continuou falando: Foi ali que eu morri! Faça ali uma capelinha de oração e coloque uma cruz, para que rezem por mim, que eu estou precisando!

Quando o guarda acordou, contou o sonho a sua esposa e ao povo da rua, os quais juntos convidaram alguns pedreiros e levaram materiais até o local e lá ergueram uma pequena capelinha de oração. Depois desse dia, a luz nunca mais apareceu no local. Daquele dia até os dias de hoje, o povo vai àquele local para fazer orações no local que foi batizado de A Santa Cruz do Deserto.
Hoje, o povo faz promessa e dizem que sempre alcançam graça.  O local é bastante visitado e vem gente de muitos lugares para pagar promessas.

Eu estava com os olhos fitados na minha mãe e não perdi nenhuma palavra daquele conto. E tendo mamãe terminado de contar esta estória, já era tarde, o pessoal se despediu dizendo:
- Dona Soledade, já é tarde, vamos embora! Amanhã voltaremos para a Senhora contar outra estória. E tendo se retirado àquelas pessoas, já era alta noite, já cantavam os galos. Então, nós fechávamos a porta e íamos rezar para dormir.

João Pessoa 09 de junho de 2021.


Dom Antonio Joaquim Alves (Thiago Alves)
Embaixador da Paz Mundial - Núcleo Paraíba, Brasil
World Parlament of Security and Peace WPO

A Arte de Thiago Alves
Enviado por A Arte de Thiago Alves em 03/07/2021
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